sexta-feira, 7 de agosto de 2026

COMO UM GIRASSOL - Capitulo 02

- Cof Cof Cof!

Era tarde da noite, beirando à madrugada. Ouviu-se uma tosse abafada que se aproximava próximo a porta entrada da casa. O barulho das chaves batendo, enquanto a porta se abria também a despertou. Marina, mãe de Serena abriu a porta do quarto e foi de encontro ao seu pai. Serena ouviu sussurros que pareciam preces ou orações, além da frase: — Não sei como iremos resolver isso, mas confio em Deus, e em você que sairemos dessa e juntos! Mas não conseguiu identificar o real motivo daquelas palavras. Com isso, abriu aporta do quarto naquele momento, essa bendita e barulhenta porta velha, que ficava se agarrando entre o portal de madeira e o piso do quarto. Ouvindo isso, e percebendo a presença da garota, os pais ergueram-se da mesa, mudaram de assunto repentinamente, aumentando o tom de voz e perguntaram como foi o dia da garota.

 

Mas Serena, notou que sua mãe ainda aparentava preocupação, e insistiu:

 

— Está tudo bem mesmo, mãe? A senhora está um pouco apreensiva.

 

— Meu amor, estou preocupada com algumas coisas do trabalho — disse, e completou: — o nosso líder antigo foi demitido, e o encarregado novo trouxe uma metodologia diferente para realizar nossa avaliação de produtividade mensal. Não basta nós sabermos fazer os queijos, precisaremos passar por uma prova escrita mensalmente, e isso contará como parte da avaliação de nosso desempenho, podendo custar até nosso emprego.

 

— Nossa mãe! Exclamou Serena. E completou: — Que barra, e que pena que ele foi demitido, era um senhorzinho bem mais razoável. Não entendo essas empresas, não basta entregar serviço de ponta e de qualidade, eles querem cada vez exigir mais e mais dos trabalhadores.

 

— Infelizmente é isso mesmo minha filha. Comentou Sr. Welton, erguendo-se mais uma vez os ombros.

 

Marina e Welton se olharam, como se buscassem confirmação de que conseguiram desviar o assunto principal da conversa, para não preocupar a filha com a situação. Após isso, ambos se despediram e foram se deitar.

 

Na manhã seguinte, Serena acorda atrasada para a escola! Ficou remoendo e pensando no que havia ouvido e sentido durante a noite passada. Tentando entender o porquê daquela situação. Temendo ainda que o veículo sombrio voltasse a dar as caras, e ainda pior, que invadissem a casa ou fizesse algo de ruim com a família. E mais uma outra preocupação surgiu, a de sua mãe ser demitida, caso não passasse na temida avaliação de desempenho do encarregado novo.

 

Comeu alguns biscoitos de queijo que sua mãe havia feito na noite anterior, um pouco de suco de laranja natural, sempre em sua xícara de girassol, arrumou os materiais na mochila, e quando já ia abrindo a porta de entrada da casa para sair, lembrou-se da sua caderneta, que havia deixado no quarto ao lado do computador, que na noite anterior após chegar do curso técnico, tinha feito anotações e rascunhos de enfermagem em saúde da criança, matéria que estava estudando atualmente para o vestibular. Guardou-a na mochila, e saiu.

 

— Guardem os materiais, e desliguem os celulares! A prova de sociologia iniciará agora! - Disse a professora.

 

— Às 07:30h? Estranho! Geralmente as provas são aplicadas após o intervalo, fazíamos a prova, e íamos embora. Qual motivo dessa antecipação? Pensou. E antes mesmo de ter a chance de perguntar, a professora respondeu:

 

—A prova será no primeiro, e segundos horários! A direção da escola está ocupada organizando os tramites burocráticos finais para a colação de grau de vocês! Além de que, devido às ocorrências de baratas na biblioteca, com risco de perca de livros importantíssimos, o diretor resolveu que ela e toda a escola será dedetizada, portanto após concluída e entregue, poderão ir para a casa! - Respondeu a professora.

 

Parecia um presente de Deus, entregue diretamente para Serena! Após uma semana exaustiva, de muito estudo, trabalho e questões de drama pessoais, finalmente poderia descansar um pouco mais, antes de ir para o trabalho / estágio. Sociologia nunca foi sua praia de estudos preferida, mas conseguiu realizar uma boa prova, aparentemente tranquila e com bons resultados.

 

Após tê-la entregado às 08:25h da manhã, Serena guardou seus materiais, despediu-se de Guilherme, e os demais colegas da classe, e seguiu em direção a sua casa. No caminho, aproveitando que, tinha algumas horas a mais no dia, resolveu passar na casa de sua avó paterna, Maria, a qual já não a via a algum tempo.

 

— Oi vó, benção, tudo bem com a senhora?

 

— Uai minha "fia", você por aqui na casa da vó? Que surpresa boa, fiquei feliz demais! Eu estou bem menina, só com um pouquinho de dor na coluna, mas é normal, na idade que estou não é mesmo? - Disse sua avó com um brilho nos olhos e exibindo um enorme sorriso.

 

— Senta-se aqui, vamos conversar um pouco! E você, está bem? Já tomou café? A vó fez pão de queijo, tá "quentin"! - Puxando uma de suas cadeiras.

 

— Ôh vó, hoje na escola foi a última prova do ano, aí eles liberaram a gente para ir embora mais cedo! A escola também seria dedetizada, e a direção estava resolvendo as burocracias da nossa formatura. Eu estou bem graças a Deus, só aquela correria de sempre, mas bem! E o tio?

 

— Seu tio está bem, chegou ontem da cidade grande, foi fazer um retorno devido ao seu tratamento, coletou alguns exames. Ele ficou para lá a semana toda. E como chegou ontem bem tarde da noite, está dormindo no momento. Está bem magro, coitado! Mas, está um pouco melhor!

 

Dona Maria além de Welton, tinha mais 9 filhos. 6 homens, e 03 mulheres. Porém apenas Tutu, tio e padrinho de Serena moravam com ela.

 

Sentou-se na mesa, na varanda da casa. Era uma casa simples, aquela arquitetura colonial clássica, casa branca, janelas e portas de madeira, com as extremidades pintadas de azul. A varanda, com fogão e forno à lenha na varanda, duas daquelas cadeiras tipo espreguiçadeiras de ferro, forradas com aquelas ligas de nylon, de um lado da mesa e outra do outro lado. A mesa era daquelas de madeira, bem antiga, mas muito bem conservada, com o típico paninho de crochê a forrando. Além de duas redes que Serena se balançava quando menor. Cenário típico e acolhedor de casa de vó.

 

Era impossível recusar o pão de queijo de sua avó, de longe, era o melhor pão de queijo de toda a cidade de Vale do Príncipe, e, se ver bem, de toda a região! Sua avó era uma excelente quitandeira, nome dado às pessoas que preparavam as tradicionais quitandas da cidade - pães de queijo; desmamadas³; bolos e biscoitos típicos da cidade.

 

— Que bom, vó, graças a Deus! Ele logo será limpo dessa doença maldita! Oro por ele todos os dias! Como a senhora disse, melhor deixar ele dormir para se recuperar totalmente.

 

— A senhora ainda está indo na praça, fazer exercícios com aquelas velhinhas? É importante para a senhora ficar bem, e se livrar um pouco dessas dores. Igual a senhora falou, na idade que a senhora tem, essas dores aparecem, e o exercício funciona como uma "graxa", quando mais a senhora faz, mais o corpo fortalece os músculos, e produz essa graxinha nas juntas do corpo da senhora, joelhos, braços, mãos.. lubrificando, fortalecendo e aliviando as dores.

 

— Pois é minha filha, estou indo sim, mas essa semana não fui! Estava preocupada com seu tio! Falando nele, e seu pai? Como está? Seu irmão, sua mãe.. todos bem?

 

— Pai está bem vó, graças a Deus conseguiu um emprego novo, essa semana foi a primeira semana de trabalho dele. Está feliz, e rindo à toa. Meu irmão também está bem, mas quase não o vejo, ele só vai em casa para dar oi, comer, dormir e tomar banho! Adolescentes né vó? Mãe graças a Deus está bem. Fez um check-up de rotina essa semana, estamos os resultados dos exames não apontaram nenhuma alteração graças a Deus.

 

— Vó, desculpe não ficar mais com a senhora, passei um pouquinho só para te dar um abraço, tenho que ir para casa, que daqui a pouco vou para o escritório! Deus lhe ajude pelo pão de queijo, de fato é o melhor da cidade!

 

— Ô minha "fia", mas está tão cedo, você já vai? Ó, espera aí um pouquinho - abre a tampa do forno e pega mais uma tampa de pães de queijo que acabaram de assar - leve esses pãezinhos de queijo para o trabalho! Vai que você sente fome! Vá com Deus, quando puder volte aqui para ver a vó! Mande meu abraço a todo mundo lá na sua casa!

 

— Volto sim vó, logo volto para ver a senhora, muito obrigado, e que Deus lhe pague pelos pães de queijo, vou levá-los sim! Fique com Deus!

 

Guardou a vasilha com os pães de queijo na mochila, e caminhou sentido a sua casa.

 

Mais tarde, no escritório...

 

— "Serena! Serena!" - Gritava o senhor Ronaldo entrando pela porta do escritório, tropeçando na escadaria, vermelho e ofegante de raiva, e indignação.

 

— Tenho uma coisa para te contar! Você me salvou da falência! Disse o Sr. Ronaldo, ainda gritando!

 

— Descobri um esquema de desvio no setor de compras da empresa! Aquela sua suspeita estava certa. Infelizmente o funcionário que eu mais confiava estava desviando verbas de uma obra nova que tínhamos na cidade. Se não fosse por seu olhar atento, essa pulga atrás da minha orelha nunca iria aparecer! Obrigado minha filha!

 

— Meu Deus, senhor Ronaldo! É sério isso? - Exclamou Serena, surpresa com o que ouviu nesse momento.

 

— Que situação embaraçosa e preocupante, Sr. Ronaldo. Continuou. — Sinto muito por estar passando por isso, mas que bom que descobriu e agora pode dar um fim!

 

— Aquele cafajeste, ex-gerente, o demiti hoje de manhã! Com justa causa! Não vou processá-lo, por respeito ao pai, que é Homem íntegro, trabalhador, que não tem culpa do filho bandido que tem! Passei para te agradecer menina, se não fosse nossa conversa anterior, isso as vezes não teria acontecido! E digo mais, hoje, mais que nunca, preciso de você em minha empresa. Uma pessoa íntegra, que sei que nunca iria me roubar! –

 

Disse o senhor Ronaldo, abaixando um pouco o tom de voz.

 

— Obrigado, senhor Ronaldo! Mas só fiz o meu trabalho. Que bom que pude ajudar um pouco nessa questão.

 

— Pois é, estou livre disso, continuarei "de orelhas em pé", como um lobo, verificando tudo que entra e sai da siderúrgica a partir de hoje. Eu venho da roça, mas não sou burro! Aliás, como está você, e os estudos? Vão bem?

 

— Estou graças a Deus bem Sr. Ronaldo, fiz a última prova da escola hoje, pego resultado semana que vem. Enfim está vindo o dia da formatura do ensino médio. Me preocupa um pouco o que irei fazer daqui para frente, mas estou feliz por estar acabando!

 

— Filha, você é esforçada, e muito estudiosa! Não sei o que quer ser, ou fazer, mas sei que vai fazer muito bem! Pois você trabalha com o coração. Tem empatia, além de técnica. Onde você pôr a planta de seus pés, boas coisas acontecerão, pois essa é sua energia! A siderúrgica está de portas abertas para você, para o que precisar! E eu também.

 

— Obrigado senhor Ronaldo, é muito gratificante ter o senhor como amigo, saiba que estou sempre às ordens também, e muito obrigado pelas palavras de carinho.

 

Serena sempre se via tentada em aceitar a proposta de trabalho do senhor Ronaldo. As coisas em casa não estavam boas, um emprego na metalúrgica poderia ajudar bastante. Porém, em um trabalho em tempo integral, recebendo ligeiramente bem, talvez faria com que ela se acostumasse, e não mais se dedicasse para os vestibulares, e esse era o real motivo pelo qual nunca havia aceitado a proposta.

 

Após o trabalho, Serena seguiu para casa. Hoje também tinha prova do curso técnico, mas ela como sempre, já havia se precavido. Aproveitou que o dia foi ligeiramente tranquilo, e repassou a matéria da prova de hoje nos intervalos do trabalho. Chegou em casa junto com o seu pai.

 

— Oi filha, tudo bem? Chegamos juntos hein? Como foi seu dia hoje?

 

— Benção pai, que bom ver o senhor! Pois é, parece que combinamos. Eu estou bem graças a Deus, hoje foi a última prova do ensino médio, e fiz bem também! Os resultados saem na semana que vem!

 

— Que bom! Estou muito orgulhoso de você. Parabéns por todo esforço, e por ser tão estudiosa! Hoje, pai te leva para o curso. Pode se arrumar com mais calma.

 

— Obrigado pai, muito bom trazer orgulho para vocês! Hoje é meu dia de sorte, sai um pouco mais cedo da escola, passei na casa da vó para visitá-la. E agora, o senhor vai me levar para o curso. Obrigado!

 

— É filha, no serviço novo, eles deixaram eu ficar com essa caminhonete, para levar materiais, ferramentas entra as obras. E como hoje cheguei mais cedo, te levo com prazer.

 

— Vamos? A sua mãe deve ter chegado, ela disse que iria preparar aquela sopa recheada, com bastante verduras, legumes e carne que você tanto gosta! Aproveite para descansar um pouquinho mais, vou fazer aquele suco de laranja com couve, hortelã, limão, cenoura e gengibre.

 

Geralmente, seu pai chegava quando Serena já tinha ido para o curso técnico. Hoje o serviço terminou cedo, e os materiais que havia pedido não haviam sido entregues, facilitando a sua vinda mais cedo para casa.

 

"Quero colo, vou fugir de casa

 

Posso dormir aqui com vocês?

 

Estou com medo, tive um pesadelo

 

Só vou voltar depois das três

 

Meu filho vai ter nome de Santo

 

Quero o nome mais bonito.."

 

No caminho para o instituto, Serena havia preparado anteriormente anotações para estudar e revisar para a prova. Mas, como estava com seu pai, preferiu aproveitar o momento, visto que ambos trabalhavam e não tinham tempo suficiente, então precisavam desse momento. Cantando juntos uma de suas músicas favoritas, "Pais e Filhos", de Legião Urbana.

 

"É preciso amar

 

As pessoas como se não houvesse amanhã

 

Porque se você parar pra pensar

 

Na verdade não há há hááa"

 

— Muito obrigado pela carona, pai!

 

— Por nada filha, tenha uma boa aula, e uma ótima prova! Precisa de dinheiro para o lanche?

— Não, a vó me deu alguns pães de queijo, como não comi no trabalho pois algo me dizia que mãe ia fazer sopa, como eles agora. Muito obrigado, vá com Deus e cuidado na volta hein? Aquela favela é perigosa pai.

 

— Fique tranquila filha, pai te busca hein? É só me ligar quando sair. Até logo.

 

Desmamada³: Típica quitanda da cidade. Um minibolo, feito de queijo e coco. A receita original encontra-se com as quitandeiras em Paracatu-MG, e ultimamente, houve tentativas de copiá-la de forma errônea em outros cantos do país.

 

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Blog e leitores, antes de saírem, dêem uma olhadinha nos meus outros cantos dessa interneta - é só navegar até a página BLOGROLL. Tem alguns blogs que sigo lá também bem legais! Garanto que não vão se arrepender.

Então pessoal, foi esse o post. Espero que tenham gostado. Um grande abraço, e, até o próximo!


Um comentário:

  1. Esse finalzinho me deixou encucada mais uma vez... esses perigos noturnos, pessoas perigosas e carros desconhecidos hein
    Você escreve muito bem!

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