- Cof Cof Cof!
Era tarde da noite, beirando à madrugada. Ouviu-se uma tosse abafada que se aproximava próximo a porta entrada da casa. O barulho das chaves batendo, enquanto a porta se abria também a despertou. Yelena começou novamente sentir um cheiro de fumaça, a mesma fumaça a qual ela havia visto anteriormente pela janela da cozinha enquanto tomava café da manhã. Se abrisse a porta do quarto naquele momento, essa bendita e barulhenta porta velha, que ficava se agarrando entre o portal de madeira e o piso do quarto, a pessoa se sentiria constrangida, e aquilo se tornaria uma situação desconfortável. Por mais que, esse confronto direto uma hora iria chegar, no momento Yelena resolveu não arriscar, e tentar coletar alguma pista de quem seria, apenas ouvindo.
Ouviu-se o som da porta da geladeira se abrindo, e a pessoa pegou uma garrafa, daquelas que antes tinha Coca-Cola, agora com água. Ela deduziu devido ao barulho familiar. Serviu-se em um copo de plástico descartável – talvez para que não fosse descoberto, pelo cheiro de fumaça por exemplo – bebeu. Caminhou lentamente em direção ao banheiro, tomou banho e foi dormir.
No outro dia, Yelena acorda atrasada para a escola! Ficou remoendo e pensando no que havia ouvido e sentido durante a noite passada. Tentando entender o porquê daquela situação. Porque aquela pessoa estaria fazendo isso com ela mesma, e com a família? Qual o porquê de se autodestruir assim? Será que essa pessoa está passando por algo, que não queira nos preocupar e nos contar, e com isso está descontando nesse vício terrível? Pensou. A essa altura, estava claro que se tratava de alguém viciado. Não se sabia em qual substância, ou em quais substâncias eram.
Comeu alguns biscoitos de queijo que sua mãe havia feito na noite anterior, um pouco de suco de laranja natural, sempre em sua xícara de girassol, arrumou os materiais na mochila, e quando já ia abrindo a porta de entrada da casa para sair, lembrou-se da sua caderneta, que havia deixado no quarto ao lado do computador, que na noite anterior após chegar do curso técnico, tinha feito anotações e rascunhos de enfermagem em saúde da criança, matéria que estava estudando atualmente para o vestibular. Guardou-a na mochila, e saiu.
- Guardem os materiais, e desliguem os celulares! A prova de sociologia iniciará agora! - Disse a professora.
Às 07:30h, estranho! Geralmente as provas são aplicadas após o intervalo, fazíamos a prova, e íamos embora. Qual motivo dessa antecipação? Pensou.
- A prova será no primeiro, e segundos horários! A direção da escola está ocupada organizando os tramites burocráticos finais para a colação de grau de vocês! Além de que, devido às ocorrências de baratas na biblioteca, com risco de perca de livros importantíssimos, o diretor resolveu que ela e toda a escola será dedetizada, portanto após concluída e entregue, poderão ir para a casa! – Respondeu a professora.
Parecia um presente de Deus, entregue diretamente para Yelena! Após uma semana exaustiva, de muito estudo, trabalho e questões de drama pessoais, finalmente poderia descansar um pouco mais, antes de ir para o trabalho / estágio. Sociologia nunca foi sua praia de estudos preferida, mas conseguiu realizar uma boa prova, aparentemente tranquila e com bons resultados.
Após tê-la entregado às 08:25h da manhã, Yelena guardou seus materiais, e seguiu em direção a sua casa. Aproveitando que, tinha algumas horas a mais no dia, resolveu passar na casa de sua avó paterna, Maria, a qual a algum tempo já não via.
- Oi vó, benção, tudo bem com a senhora?
- Uai minha "fia", você por aqui na casa da vó? Que surpresa boa, fiquei feliz demais! Eu estou bem menina, só com um pouquinho de dor na coluna, mas é normal, na idade que estou não é mesmo? - Disse sua avó com um brilho nos olhos e exibindo um enorme sorriso.
- Senta-se aqui, vamos conversar um pouco! E você, está bem? Já tomou café? A vó fez pão de queijo, tá "quentin"! – Puxando uma de suas cadeiras.
- Ôh vó, hoje na escola foi a última prova do ano, aí eles liberaram a gente para ir embora mais cedo! A escola também seria dedetizada, e a direção estava resolvendo as burocracias da nossa formatura. Eu estou bem graças a Deus, só aquela correria de sempre, mas bem! E o tio?
- Seu tio está bem, chegou ontem da cidade grande, foi fazer um retorno devido ao seu tratamento, coletou alguns exames. Ele ficou para lá a semana toda. E como chegou ontem bem tarde da noite, está dormindo no momento. Está bem magro, coitado! Mas, está um pouco melhor!
Sentou-se na mesa, na varanda da casa. Era uma casa simples, aquela arquitetura colonial clássica, casa branca, janelas e portas de madeira, com as extremidades pintadas de azul. A varanda, com fogão e forno à lenha na varanda, duas daquelas cadeiras tipo espreguiçadeiras de ferro, forradas com aquelas ligas de nylon, de um lado da mesa e outra do outro lado. A mesa era daquelas de madeira, bem antiga, mas muito bem conservada, com o típico paninho de crochê a forrando. Além de duas redes que Yelena se balançava quando menor. Cenário típico e acolhedor de casa de vó.
Era impossível recusar o pão de queijo de sua avó, de longe, era o melhor pão de queijo de toda a cidade de Vale do Príncipe, e, se ver bem, de toda a região! Sua avó era uma excelente quitandeira, nome dado às pessoas que preparavam as tradicionais quitandas da cidade – pães de queijo; desmamadas³; bolos e biscoitos típicos da cidade.
- Que bom, vó, graças a Deus! Ele logo será limpo dessa doença maldita! Oro por ele todos os dias! Como a senhora disse, melhor deixar ele dormir para se recuperar totalmente.
- A senhora ainda está indo na praça, fazer exercícios com aquelas velhinhas? É importante para a senhora ficar bem, e se livrar um pouco dessas dores. Igual a senhora falou, na idade que a senhora tem, essas dores aparecem, e o exercício funciona como uma "graxa", quando mais a senhora faz, mais o corpo fortalece os músculos, e produz essa graxinha nas juntas do corpo da senhora, joelhos, braços, mãos.. lubrificando, fortalecendo e aliviando as dores.
- Pois é minha filha, estou indo sim, mas essa semana não fui! Estava preocupada com seu tio! Falando nele, e seu pai? Como está? Seu irmão, sua mãe.. todos bem?
- Pai está bem vó, graças a Deus conseguiu um emprego novo, essa semana foi a primeira semana de trabalho dele. Está feliz, e rindo à toa. Meu irmão também está bem, mas quase não o vejo, ele só vai em casa para dar oi, comer, dormir e tomar banho! Adolescentes né vó? Mãe graças a Deus está bem. Fez um check-up de rotina essa semana, estamos aguardando o resultado dos exames, mas vai estar tudo bem se Deus quiser!
- Vó, desculpe não ficar mais com a senhora, passei um pouquinho só para te dar um abraço, tenho que ir para casa, que daqui a pouco vou para o escritório! Deus lhe ajude pelo pão de queijo, de fato é o melhor da cidade!
- Ô minha "fia", mas está tão cedo, você já vai? Ó, espera aí um pouquinho – abre a tampa do forno e pega mais uma tampa de pães de queijo que acabaram de assar - leve esses pãezinhos de queijo para o trabalho! Vai que você sente fome! Vá com Deus, quando puder volte aqui para ver a vó! Mande meu abraço a todo mundo lá na sua casa!
- Volto sim vó, logo volto para ver a senhora, muito obrigado, e que Deus lhe pague pelos pães de queijo, vou levá-los sim! Fique com Deus!
Guardou a vasilha com os pães de queijo na mochila, e caminhou sentido a sua casa.
Mais tarde, no escritório...
- "Yelena! Yelena!" - Gritava o senhor Ronaldo entrando pela porta do escritório, tropeçando na escadaria, vermelho e ofegante de raiva, e indignação.
- Tenho uma coisa para te contar! Você me salvou da falência! Disse o Sr. Ronaldo, ainda gritando!
- Descobri um esquema de desvio no setor de compras da empresa! Aquela sua suspeita estava certa. Infelizmente o funcionário que eu mais confiava estava desviando verbas de uma obra nova que tínhamos na cidade. Se não fosse por seu olhar atento, essa pulga atrás da minha orelha nunca iria aparecer! Obrigado minha filha!
- Meu Deus, senhor Ronaldo! É sério isso? - Exclamou Yelena, surpresa com o que ouviu nesse momento.
- Que situação embaraçosa e preocupante, Sr. Ronaldo. Continuou. - Sinto muito por estar passando por isso, mas que bom que descobriu e agora pode dar um fim!
- Aquele cafajeste do Juvenal, ex-gerente, o demiti hoje de manhã! Com justa causa! Não vou processá-lo, por respeito ao pai, que é Homem íntegro, trabalhador, que não tem culpa do filho bandido que tem! Passei para te agradecer menina, se não fosse nossa conversa anterior, isso as vezes não teria acontecido! E digo mais, hoje, mais que nunca, preciso de você em minha empresa. Uma pessoa íntegra, que sei que nunca iria me roubar! – Disse o senhor Ronaldo, abaixando um pouco o tom de voz.
- Obrigado, senhor Ronaldo! Mas só fiz o meu trabalho. Que bom que pude ajudar um pouco nessa questão.
- Pois é, estou livre disso, continuarei "de orelhas em pé", como um lobo, verificando tudo que entra e sai da siderúrgica a partir de hoje. Eu venho da roça, mas não sou burro! Aliás, como está você, e os estudos? Vão bem?
- Estou graças a Deus bem Sr. Ronaldo, fiz a última prova da escola hoje, pego resultado semana que vem. Enfim está vindo o dia da formatura do ensino médio. Me preocupa um pouco o que irei fazer daqui para frente, mas estou feliz por estar acabando!
- Filha, você é esforçada, e muito estudiosa! Não sei o que quer ser, ou fazer, mas sei que vai fazer muito bem! Pois você trabalha com o coração. Tem empatia, além de técnica. Onde você por a planta de seus pés, boas coisas acontecerão, pois essa é sua energia! A siderúrgica está de portas abertas para você, para o que precisar! E eu também.
- Obrigado senhor Ronaldo, é muito gratificante ter o senhor como amigo, saiba que estou sempre às ordens também, e muito obrigado pelas palavras de carinho.
Yelena sempre se via tentada em aceitar a proposta de trabalho do senhor Ronaldo. As coisas em casa não estavam boas, um emprego na metalúrgica poderia ajudar bastante. Porém, em um trabalho em tempo integral, recebendo ligeiramente bem, talvez faria com que ela se acostumasse, e não mais se dedicasse para os vestibulares, e esse era o real motivo pelo qual nunca havia aceitado a proposta.

Após o trabalho, Yelena seguiu para casa. Hoje também tinha prova do curso técnico, mas ela como sempre, já havia se precavido. Aproveitou que o dia foi ligeiramente tranquilo, e repassou a matéria da prova de hoje nos intervalos do trabalho. Chegou em casa junto com o seu pai.
- Oi filha, tudo bem? Chegamos juntos hein? Como foi seu dia hoje?
- Benção pai, que bom ver o senhor! Pois é, parece que combinamos. Eu estou bem graças a Deus, hoje foi a última prova do ensino médio, e fiz bem também! Os resultados saem na semana que vem!
- Que bom! Estou muito orgulhoso de você. Parabéns por todo esforço, e por ser tão estudiosa! Hoje, pai te leva para o curso. Pode se arrumar com mais calma.
- Obrigado pai, muito bom trazer orgulho para vocês! Hoje é meu dia de sorte, sai um pouco mais cedo da escola, passei na casa da vó para visitá-la. E agora, o senhor vai me levar para o curso. Obrigado!
- É filha, no serviço novo, eles deixaram eu ficar com essa caminhonete, para levar materiais, ferramentas entra as obras. E como hoje cheguei mais cedo, te levo com prazer.
- Vamos? A sua mãe deve ter chegado, ela disse que iria preparar aquela sopa recheada, com bastante verduras, legumes e carne que você tanto gosta! Aproveite para descansar um pouquinho mais, vou fazer aquele suco de laranja com couve, hortelã, limão, cenoura e gengibre.
Geralmente, seu pai chegava quando Yelena já tinha ido para o curso técnico. Hoje o serviço terminou cedo, e os materiais que havia pedido não haviam sido entregues, facilitando a sua vinda mais cedo para casa.
"Quero colo, vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de Santo
Quero o nome mais bonito.."
No caminho para o instituto, Yelena havia preparado anteriormente anotações para estudar e revisar para a prova. Mas, como estava com seu pai, preferiu aproveitar o momento, visto que ambos trabalhavam e não tinham tempo suficiente, então precisavam desse momento. Cantando juntos uma de suas músicas favoritas, "Pais e Filhos", de Legião Urbana.
"É preciso amar
As pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há há hááa"
- Muito obrigado pela carona, pai!
- Por nada filha, tenha uma boa aula, e uma ótima prova! Precisa de dinheiro para o lanche?
- Não, a vó me deu alguns pães de queijo, como não comi no trabalho pois algo me dizia que mãe ia fazer sopa, como eles agora. Muito obrigado, vá com Deus e cuidado na volta hein? Aquela favela é perigosa pai.
- Fique tranquila filha, pai te busca hein? É só me ligar quando sair. Até logo.
Desmamada³: Típica quitanda da cidade. Um mini bolo, feito de queijo e coco. A receita original encontra-se com as quitandeiras em Paracatu-MG, e ultimamente, houve tentativas de copia-la de forma errônea em outros cantos do país.
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