Fala blog, tudo bem?
Estou participando do projeto BEDA/BEWA de agosto, da comunidade ENTREBLOGS, que esse ano tem o nome de: D&B - Os Guardiões da Blogosfera (que dahora cara, tô até arrepiado, parabéns as envolvidos). Trata-se de um desafio para nós blogueiros para postar diariamente, caso aceite o desafio BEDA (Blog Every Day August) ou semanalmente, caso aceite o desafio BEWA (Blog Every Week August). Nesse ano, curti demais a temática do projeto, tratando-se da "Gamificação da Blogosfera". Toda uma temática gamer / mitologica / medieval / RPG e cara, você sabe, eu sou apaixonado por games, então não poderia perder isso por nada. Até o fim da semana enviarei outra postagem referente a minha participação nesse projeto muito dahora dos nossos queridos chefes Barbara do blog BMRTT e Igor Medoeroz.
O vilão da primeira semana do BEDA/BEWA é o Crítico Infinito, (ééé isso mesmo, o pessoal fez um projeto tão da hora e imersivo, que cada semana terá um vilão para derrotarmos) que pelo que entendi, trata-se de algo no sentido do perfeccionismo exagerado das coisas e como combatê-lo. Com isso, a minha primeira missão de investida para derrotar o vilão da semana tem o nome de: O Pergaminho Esquecido, que conforme informações do projeto, trata-se de publicar um dos meus rascunhos antigos informando desde quando estava parado).
Ah, vale lembrar que estou publicando o mesmo na minha página do WATTPAD (Clique para visitar), lá tem prefácio, dedicatórias e algumas outras coisinhas já atualizadas. Ressalto também que, relendo o primeiro capítulo, senti necessidade de revisá-lo novamente, então, trabalharei nisso e atualizarei lá no WATTPAD ok? Então, booora pro primeiro capítulo!
CAPITULO 01:
Segunda-feira, 05:30h da manhã. Serena se aprontava para iniciar a penúltima semana de aulas, na Escola Estadual Dr. Altino de Paulo, em Vale do Príncipe, uma pequena cidade histórica de Minas Gerais, onde morava com sua mãe Marina, seu pai Welton, e John, seu irmão caçula. Era também a semana de provas finais, além disso, os preparativos para a formatura do ensino médio estavam a todo vapor.
O uniforme não havia secado, devido ao clima frio, e na
noite anterior havia chovido bastante na cidade. A caminhada de casa até o
colégio seria longa, e com certeza iria secar pelo caminho. Pegou uma faca na
gaveta do armário e cortou um pequeno pedaço de bolo de cenoura com cobertura
de chocolate, o qual sua mãe havia assado às 04:00h da manhã para o café da
manhã.
Além da fatia de bolo, Serena preparou em uma xícara branca,
com uma pintura de um girassol e uma frase: “— Seja como o girassol, sempre
procure a luz, por mais escura que a situação pareça estar!”, um pouco de leite
com achocolatado. Não por acaso, essa xícara era a favorita de Serena, dentre
todas as xícaras da casa. Foi a sua avó que havia lhe dado, e essa frase
gravada, é ela que diz sempre. Pelo significado, pelo tempo que a xícara estava
com ela e, principalmente por quem a havia lhe presenteado.
Na noite anterior, fez todas as lições, e, como entraria na
semana de provas, dedicou um tempo de seu fim de semana na revisão dos
conteúdos. Fez várias anotações, rascunhos e mapas mentais em sua fiel
caderneta de bolso, a qual não a largava por nada. Além do conteúdo das provas
trimestrais, Serena sempre dedicava parte do tempo em estudos para vestibular.
Era seu maior sonho ser aprovada em uma faculdade federal de renome nacional.
Enquanto tomava café, Serena observou pela janela da cozinha
— que dava diretamente para a rua — uma cena que lhe causou um tremendo
espanto: um veículo preto passando em ritmo de procissão, com as luzes
completamente apagadas. O insulfilme escuro não permitia identificar quem
estava dentro, mas a intenção ficou clara: o carro devorava a extensão da casa
com um olhar lento e invisível.
Nesse momento, Serena foi tomada por um sentimento de
pânico. Suas mãos tremeram a ponto de derramar parte do achocolatado da xícara
na mesa. O que fora aquilo que acabara de presenciar? Alguma espécie de bandido
observando a movimentação da casa com intenção de roubar? Ou pior, algum
desafeto de um ente da família aguardando sua chegada para fazer-lhe algum mal?
Uma enxurrada de porquês e possíveis respostas correu pela mente de Serena nos
poucos segundos até o sombrio veículo desaparecer do alcance da janela.
Minutos depois, Serena reagiu aproximando-se do vidro para
espiar se ainda havia vestígios do carro na rua ou qualquer outra movimentação.
Para sua surpresa, a rua estava completamente vazia. Ainda aflita com a
situação, limpou o achocolatado derramado na mesa, recolheu suas coisas e saiu
para a escola.
Olhava para ambos os lados enquanto caminhava, atenta a
qualquer sinal que pudesse ter relação ao carro preto visto anteriormente. Cada
barulho de motor desacelerando fazia seu peito apertar e o coração bater mais
forte.
“—Quem poderia ser? O que estaria procurando ou querendo
para estar passando devagar assim e justamente em frente à nossa casa? Será minha
cabeça tentando pregar uma peça fazendo-me ver coisas onde não tem? Talvez
aquele carro tenha passado lentamente por algum problema mecânico, ou outra
situação qualquer, não por isso poderia estar observando a nossa casa.” Pensou
Serena, na tentativa de entender aquela situação, e ainda se acalmar.
Junto a isso, o sentimento de incerteza, ansiedade e
angústia, além do medo do presente, do passado, e principalmente do que
aconteceria em seu futuro vinham e iam involuntariamente, enquanto seguia em
direção ao colégio.
Após longos minutos de caminhada, a ponto de secar o
uniforme anteriormente úmido, ao aproximar-se da última esquina do trajeto, próximo
à praça do bairro, Serena avista uma criança passeando com seu shitzu cor
preta, cinza e branca. O cachorrinho parecia estar todo feliz, fuçando e
cheirando tudo que tinha pela frente como se nunca tivesse passado por ali.
Tantos cheiros diferentes, realmente parecia bem feliz. A criança então, pelas
reações, e o certo mal jeito que demonstrava ao segurar a coleira do animal,
parecia tê-lo ganhado a pouco tempo, e ainda estava descobrindo quão bom era
ter um amigo de quatro patas.
Serena adorava presenciar a pureza de momentos simples como
aquele, e por um momento, teve uma trégua do espiral de pensamentos negativos
que a rodeavam desde a hora do café. Com isso, tomou coragem para vencer os últimos
metros de caminhada, ultrapassou os portões do colégio. Assim que cruzou o
corredor, disfarçou o aperto que sentia no peito, e as expressões de angústia e
preocupação deram lugar a um belíssimo sorriso no rosto, colocando-se a
disposição de suas colegas que precisavam de um socorro de última hora.
Serena apesar de tudo, sempre auxiliava os colegas nas
tarefas. O que mais uma vez prova a afirmação, de que quanto mais dura era a
vida, mais a pessoa se esforçava para sair daquilo, e melhorar. Queria ter uma
vida melhor, sonhava em ajudar e proporcionar tranquilidade aos pais. Além
disso, algo dentro dela ardia sem cessar, como um chamado divino, um dom, pelo
qual Serena tanto se esforçava, e renunciava inúmeras coisas para que um dia,
conseguisse conquistar. A paixão pelas crianças, e a carência de cuidado que
observava a seu redor, escrevia em seu coração a vontade de dedicar sua vida ao
cuidado infantil!
Em sua infância, não teve tanta atenção de seus familiares
próximos. E via essa situação se repetir, agora com as crianças da família. Com
isso, Serena fazia de tudo para dar atenção, carinho e cuidado sempre que os
via, pois não queria que os pequeninos sentissem o que ela havia sentido quando
criança. Ou que pelo menos, sentissem menos e de alguma forma ela pudesse
acalentá-los.
Após solucionar as dúvidas de suas colegas no corredor,
seguiram para a sala de aula, onde seria aplicada a primeira prova da semana. Serena
sempre ia muito bem nas avaliações e trabalhos acadêmicos, mas havia uma
matéria a qual ela não se sentia tão confortável: Matemática! Justamente a
primeira prova da semana. Mesmo assim, dotada de bastante atenção, afinal, havia
revisado na noite anterior e estava preparada para o desafio. Fez a prova, e
após foi para o pátio de convivência. O próximo aluno a terminar a prova e sair
da sala foi o Guilherme, amigo de Serena desde o colegial. Avistou Serena
sentada na mesa próxima a biblioteca, e aproximou-se lentamente.
— Está se sentindo
bem ou precisa de primeiros socorros depois da prova do professor Fábio?
Brincou Guilherme, amigo de Serena.
— Pois é Guilherme, no fim da prova não sabia mais nem onde
colocar meu nome. Mas consegui terminar, graças a Deus. Mas você sempre foi
muito bom em matemática, deve ter ido bem. Apesar de tudo, acredito que fomos
bem.
— Você também e muito
dedicada e inteligente, Serena, certeza que tirou total. Aliás, vou sentir muito
sua falta depois daqui, são nossas últimas provas, últimos dias de aula, e, de
coração, sua amizade foi a que mais me marcou dentre todos esses anos. Sei que
está construindo um futuro brilhante, e que de alguma forma, nós nos veremos
novamente.
Serena e Guilherme eram amigos desde o ensino fundamental.
Entraram juntos na escola na quinta-série, a alguns anos atrás. Ela gostava da
forma respeitosa e carinhosa a qual era tratada por ele, e como a conversa
fluía quando conversavam, sempre de forma descontraída. Não havia duplos
sentidos ou segundas intenções. Era algo simples, sincero e acolhedor.
— Também vou levar com carinho todas nossas lembranças boas
Guilherme! Você quem estava comigo quando mais precisava de um conforto, de desabafar.
Sua amizade é essencial para mim, e com certeza foi o que deixou esses dias de turbulência
do colégio bem mais tolerável. Vou sentir muito a sua falta, e espero muito que
nos encontremos novamente.
— Você vai participar da colação de grau da nossa turma?
Perguntou Livia, amiga de Serena aproximando-se da mesa onde estavam.
Atormentada pelos pensamentos e ansiedades com o futuro,
além de todo desgaste emocional e , psicológico que passou no início da manhã, respondeu
apenas: —Sim. Em tom cabisbaixo¹, e
pouco entonado.
Faltava 30 dias para a formatura, 30 dias para um enorme
vazio. A pergunta que foi feita de forma inocente, fez reacender o sofrimento,
pois, pensar na colação de grau significa pensar que o ensino médio estava
acabando. Trabalhar para ajudar em casa e não ser mais um peso, afinal, ano que
vem faria 18 anos? Estudar um pouco mais, para ingressar em uma boa faculdade
federal? Para uma menina de 17 anos, lidar com essas incertezas e questões era
apavorante.
A sirene toca, e funciona como um alívio. Serena se despede,
guarda seus materiais, e corre para a casa, pois após o almoço teria que ir
correndo para o segundo turno, seu estágio num escritório de
contabilidade.
Ao chegar em casa, foi recebida pelo seu pai, e notou que
ele estava em estado de bastante euforia. Tentou entrar no clima, não querendo
transparecer o que estava sentindo, e exclamou:
— Quanta alegria, há algo de bom para me contar?
— Consegui um emprego como supervisor, em uma obra de
reforma aqui no bairro vizinho. Disse seu pai.
E por um pequeno momento, Serena deixou-se repousar naquela
notícia feliz! Comemorou a conquista com o pai, almoçou, e logo se foi para o
estágio.
Relatórios de custos, inventários para revisar, e clientes
querendo sonegar impostos de maneira “legalizada”, mil pilhas de contratos para
organizar e armazenar em ordem alfabética e cronológica. A bolsa de estudos que
recebia mal dava para suprir as necessidades básicas, mas a carga de serviço no
escritório era de uma profissional gabaritada, e com currículo de 30 anos de
experiência. Mas Serena fazia o possível, o máximo que conseguia e com toda
atenção, afinal, era com o dinheiro e sonhos dos outros que ela estava
trabalhando, não poderia errar.
Entre um relatório e outro, às vezes nos 5 ou 10 minutos que
tinha de descanso, sempre estava com sua caderneta de rascunhos, ou alguma
anotação em folha, ou um livro na gaveta. Cuidar de crianças sempre foi seu
maior sonho, o ponto alto ao qual se sentiria realizada. Era um chamado de
Deus, o qual ela estava conquistando, degrau por degrau, tijolo por tijolo, não
estava sendo fácil, a vida corrida, a falta de recursos, falta de tempo, vendo
a adolescência passar, mas esse chamado era inegável. Uma força fora do comum
sempre a animava, e não a deixava desistir.
— Boa tarde Serena, que bom que chegou. O senhor Ronaldo
passou aqui uns 30 minutos atrás. Disse Claudia, a colega de trabalho.
— Boa tarde, aconteceu algo de errado com a folha de
pagamento da metalúrgica?
— Não, não. Ele veio especificamente atrás de você, dizendo
que precisava da sua ajuda para “fazer aquela tal coisa” novamente. Acredito
que seja aquela conciliação complexa que só você tem paciência para explicar
para ele.
— Ah, sei sim! Deve ser aquela planilha de custos fixos,
conversando com as entradas fixas e variáveis e com as saídas variáveis da
firma. Coitado, ele ficou me esperando por muito tempo?
— Ele foi bem enfático, nem quis saber de conversar com
nossos contadores seniores, disse bem: “— Onde está aquela menina? Diga a ela
que eu volto quando ela estiver!” Ele confia bastante no seu jeito de organizar
as coisas.
— Tudo bem então, vou deixar o arquivo dele aqui na área de
trabalho, para ficar fácil quando ele chegar.
Não era só pela competência e organização da Serena. O
Senhor Ronaldo era um senhorzinho de ¾ de idade, nascido e criado na roça, e
com seu esforço e suor conquistou seu reinado na cidade, era o proprietário da
Metalúrgica Vale do Príncipe, a maior empresa do ramo no estado, e, nesse
cenário, a maior empresa da cidade. Porém, computadores, excel, planilha nunca
foram seu forte. Mas Serena, sempre teve a atenção e o cuidado necessário para
explicá-lo, mil e uma vezes a mesma informação, até que o senhor Ronaldo não
tivesse mais dúvidas. Afinal, ela estava lidando com milhares de empregos, não
só com as “contas do senhor Ronaldo”. E esse era um dos diferenciais, o
trabalho com amor, com educação e empatia. Os contadores seniores com certeza
conseguiriam organizar e realizar o trabalho. Mas só Serena, o atendia com o
cuidado que precisava.
— Boa tarde, minha filha! Que bom que você chegou! Fui ali na
Trembão² tomar um café, e experimentar o novo pão de queijo com linguiça que
eles estavam servindo lá, enquanto aguardava você! Aquela planilha que conversa
e me dá o que sobra após eu pagar todos meus funcionários, os impostos, contas
da empresa, você conseguiu fazer?
— Oi, senhor Ronaldo, que bom tê-lo por aqui! Sente-se! Irei
lhe mostrar a planilha em um minuto, só terminar de mandar esse e-mail para a
prefeitura.
O senhor Ronaldo moveu a cadeira que estava em frente à mesa
e a deixou do lado de Serena. Com isso observou uma pequena caderneta aberta ao
lado do computador, e perguntou:
— Por isso que você tem todas as respostas rapidinho minha
filha? Anota tudo nesse caderninho para se lembrar? Disse ele, apontando para a
direção da caderneta.
Serena cresceu em um cenário onde, “filho de pobre não pode
estudar, tem que trabalhar!”. Cenário o qual não era tão valorizada
profissionalmente e pessoalmente falando. Essa frase anterior, “filho de pobre
não pode estudar, tem que trabalhar!” por exemplo, foi dita pelo seu próprio
tio ao pai dela. Com crenças que diziam que moças tinham que se casar, ter
filhos e cuidar da casa. Não era bem assim que ela gostaria de viver. Queria
conquistar seu espaço, suas coisas, e sua independência financeira além de tudo.
E, para ela, expor seus próximos passos, e seus sonhos de futuro não era fácil.
Mas com o senhor Ronaldo por algum motivo era diferente, ele sempre à deixava
confortável, e a aconselhava, via ela como realmente uma neta, ou filha mais
nova.
— “Né” não senhor Ronaldo, é que como minha vida está um
pouco corrida, trago esse caderno com alguns rascunhos para que, se houver
algum minuto de ociosidade, eu possa estudar um pouco.
Ele a conhecia desde criança, sabia da luta diária da
menina, e a admirava muito por isso. Talvez, a preferência dele por ela o
atender, vinha desse motivo também, além da empatia, claro.
Serena explicou tudo, e ensinou o senhor Ronaldo onde eles
precisam dar entradas de verba, e, após tudo preenchido, a planilha iria exibir
o lucro mensal da companhia. Além disso, baixou os relatórios anteriores da
siderúrgica, e constatou que a empresa estava tendo uma saída que não estava
sendo explicada nas notas fiscais. “— Não tinha como uma caixa de grampos
custar R$250,00 reais por exemplo.” Pensou. Discutindo com o senhor Ronaldo,
explicou a situação. E o senhor Ronaldo logo desconfiou de um de seus funcionários,
que poderia estar desviando algo.
— Obrigado minha filha, e muito boa sorte na sua jornada!
Você é uma profissional brilhante, quando quiser, vá até a siderúrgica! Estou
precisando de uma pessoa para ficar no “Contas a Pagar da empresa!”
Trabalhar na siderúrgica era visto com bons olhos pelos
moradores de Vila do Príncipe. O respeito e status que os trabalhadores de lá
tinham na cidade, oportunidades. Além do salário na siderúrgica, que era muito
bom, o maior da cidade. Havia vários benefícios, férias premium, vale saúde,
alimentação, auxílio creche, tudo que um bom emprego CLT pode oferecer. Mas os
planos de Serena eram outros. Parecia que, o rosto daquelas crianças todos os
dias apareciam para ela, em sonhos e em pensamentos. O chamado realmente era muito intenso, partia
do fundo de seu coração, foi implantado lá por Deus, e ela não poderia
abandonar aquilo, para ter uma vida tranquila como CLT, ganhando seus muitos
mil reais. Por mais tentador que aquilo pudesse ser, havia algo muito maior, um
sentimento e vontade inexplicável de continuar estudando.
Mais tarde, naquele mesmo dia, a caminho de casa, Serena
encontra-se com uma senhora na rua. Com várias sacolas precisando atravessar na
movimentada avenida João Pedro II, até o seu fusquinha amarelo que estava do
outro lado. Não pensou duas vezes. Perguntou se podida ajudá-la, tomou em suas
mãos as sacolas, agarrou-se delicadamente em um dos braços da velhinha, e,
sinalizando com a mão cheia de sacolas para os carros que estavam vindo,
conseguiu atravessar a avenida. Aquela senhorinha cheia de gratidão, disse a
ela:
— Muito obrigado, meu bem! Eu estava aqui a uns 10 minutos,
esse semáforo só fica vermelho 15 segundos devido ao cruzamento movimentado,
ainda mais nesse horário de pico. As crianças e jovens conseguem passar
correndo, mas eu já tô com 79 anos, minhas canelinhas que antes eram de líder
de torcida e jogadora de vôlei, já não aguentam mais!
— Não foi nada, é sempre um prazer poder ajudar! Tudo bem
com a senhora? Precisa de algo mais?
— Não minha filha. Escute, mantenha sempre esse sorriso, meu
dia melhorou não só porque me ajudou, mas porque por muito tempo não recebia um
sorriso tão sincero e puro como esse! Que Deus te acompanhe e te abençoe por
onde você for!
— Amém. Respondeu Serena, e seguiu.
Era impressionante, que mesmo com tudo acontecendo, Serena
conseguia manter o sorriso, por mais que estava passando por aquelas situações,
ainda sim sempre iluminava e alegrava a vida das pessoas, com carisma e
empatia.
Era noite, faltando apenas 40 minutos para ir para seu
terceiro turno, um curso técnico que fazia no instituto federal. Ela não tinha
uma vontade exacerbada de fazê-lo, porém, quando ingressou, rapidamente traçou uma
excelente estratégia: Um instituto federal possui diretrizes e cobranças além
de incentivo à estudos e produções acadêmicas os quais a auxiliariam em seu
objetivo principal, fornecendo orientações sobre como ingressar na vida
acadêmica federal. E dito e feito, estudar em uma escola federal de conceito,
traz uma excelente bagagem acadêmica. Grava na mente do estudante a vontade de
conquistar coisas grandiosas, como um concurso, um vestibular federal, por
exemplo. Além disso, foi esse curso que lhe proporcionou a oportunidade de
estágio no escritório.
Graças a bolsa do estágio, conseguia dinheiro para pagar a
passagem de ônibus, para que, pelo menos a noite, pudesse estudar com
tranquilidade. O instituto federal fica localizado em uma área semirrural, às
margens de uma típica rodovia estadual mineira, sem acostamento, iluminação, e
com fluxo intenso de veículos, tanto carros, caminhões e carretas carregadas.
Passava-se também, na periferia de uma favela perigosa da
cidade. Histórias eram contadas de tráfico, abuso infantil e de mulheres,
sequestro, roubos naquela região. De fato não era necessário passar dentro da
favela, mas a proximidade a ela já trazia pavor a Serena, ainda mais pois, se
fosse a pé, iria sozinha, assim como vai em todos seus compromissos diários.
São locais inóspitos, cheios de indivíduos com intenções duvidosas. Um trajeto
totalmente perigoso para uma jovem percorrer principalmente no retorno para a
casa.
No outro dia, como forma de retribuir o carinho de sua mãe anteriormente,
Serena acordou antes dela, às 03:30h da manhã. Passou o café, e preparou o
pãozinho com manteiga que sua mãe adorava. Esperou que ela acordasse, e, teve
um momento mãe e filha que muito tempo as duas não tinham.
— Bom dia, minha mãe, a sua benção. Dormiu bem, conseguiu
descansar um pouco?
— Oh meu amor, acordada a essa hora? Não devia estar
dormindo? Seu dia será comprido! Dormi bem sim graças a Deus.
— Mãe, queria retribuir todo amor, carinho e cuidado que a
senhora tem por nós. Sei que ama um pãozinho com manteiga. Tentei passar o café
da melhor forma possível, sem açúcar, pois a senhora é fitness. Aquele seu
bolinho de cenoura com cobertura de chocolate estava dos deuses! Foi ele que me
alimentou de amor, para poder enfrentar mais um dia, e iniciar bem mais uma
semana!
— Também, mãe, queria conversar um pouquinho com a senhora.
Nos fins de semana, geralmente vamos para a casa da vovó, com aquele tanto de
gente que nem sempre conseguimos ter esse momento. Como estão as coisas, no
trabalho, aqui em casa.. a sua saúde? Passo tanto tempo fora, que não estou
conseguindo acompanhar a nossa rotina mais.
— Está tudo bem graças a Deus filha. Aquela cooperativa
nunca muda, trabalhamos bastante, alguns líderes não nos respeitam tanto assim,
mas Sempre os dobramos na conversa para conseguirmos trabalhar em paz, fazendo
nosso queijinho. Inclusive hoje farei o queijo trança, e muçarela que você
gosta tanto.
— Aqui em casa também está normal, você como sempre
trabalhando bastante, seu irmão conseguiu um emprego meio período numa oficina
mecânica também. Seu pai também de emprego novo. Aos poucos, tudo vai bem.
— Mas o assunto que Serena realmente queria tratar com sua
mãe era outro. De fato aquele carro preto havia lhe intrigado, com isso,
precisava conversar com alguém sobre o assunto, e entender se era algo de sua
cabeça, ou uma situação realmente real.
— Mãe, ontem de manhã, quando estava me preparando para ir
para a escola, vi pela janela da cozinha um carro preto com os faróis todos
apagados, passando bem devagar pela rua em frente nossa casa. Parecia estar
observando aqui dentro, tentando encontrar algo ou alguém. Quando vi fiquei
arrepiada, uma sensação apavorante me tomou. Depois, aproximei-me da janela
para espiar e ver se encontrava algo, mas não havia nada mais, e a rua estava
vazia.
— Oh filha, eu também já vi esse carro preto algumas vezes
de madrugada, quando saia para o trabalho. Em uma vez, ele estava parado na
esquina de cima com faróis acesos, e quando sai pelo portão, notei que apagaram
as luzes. Virei as costas, fiz minhas orações, e segui o meu caminho!
Ao comentar com a filha, dona Marina enrijeceu os ombros, abaixou
a cabeça e falava com expressão de temor, e de tristeza. Algo de errado estava
acontecendo.
— Pois é mãe, então não era algo da minha cabeça. Realmente
há alguma coisa no ar. A senhora sabe quem são, e o que eles querem? Comentou
Serena aproximando-se da mãe, e tocando em suas mãos ao notar suas reações à conversa.
Dona Marina hesitou, respirou fundo e respondeu:
— Na-não minha filha, não sei quem são, mas a primeira vez
que os vi foi a aproximadamente um mês atrás.
Com isso, Serena entendeu que a sua mãe sabia de algo que
não queria lhe contar. Notou também que falava com lágrimas nos olhos e voz
embargada. Serena não teve coragem de continuar naquele assunto, e resolveu
investigar sozinha.
— Ah mãe, deixe para lá esse assunto. Não deve ser nada, e
que Nossa Senhora Aparecida nos proteja e nos guarde de todo mal! Tem mais
coisas boas para me contar?
— Retomei com minhas caminhadas ontem, sabia? Me sinto tão
bem quando faço exercícios, e, ultimamente as coisas estavam corridas, mal
sobrava tempo para descansar. Cuidando da sua avó na recuperação da cirurgia e
fazendo hora extra no laticínio. Mas ontem caminhei por 30 minutos. Acho que
até emagreci alguns quilinhos.
— Oh mãe, eu te amo, que bom que conseguiu retornar as
caminhadas, que continue! A senhora merece se sentir bem! Bom, mas vá se
arrumar. A cooperativa é longe daqui, se eu tivesse um carro ou moto, levaria a
senhora lá. Fique com Deus, mãe. Vou me deitar só mais um pouco, até a hora de
ir para a escola!
Cabisbaixo¹: moralmente abatido ou desanimado; triste,
desolado, envergonhado, derrotado, humilhado.
Trembão²: tradicional padaria e "pão de queijaria"
da cidade.
#literaturanacional #drama #inspirador #minasgerais
#enfermagem #superacao #romance.

Mergulhei com tudo nos seus escritos, William! Já estou com 1001 possibilidades do que pode ser o carro fervilhando na minha cabeça hahahahaha
ResponderExcluirQue bacana saber que você já tem 5 capítulos escritos e em revisão... que venham mais e mais!
Abraço
https://falacatarina.com/blog/