O amado fusca que nunca foi meu
por: Willian Ernani
| Fotografia do fusca original da história |
Certo dia, o dono da empresa levou para o pátio um Fusca que tinha sido da mãe ou do pai dele, não me lembro ao certo. Acredito que era apenas para fazer alguma manutenção, mas, para minha surpresa, o fusquinha ficou lá em definitivo para usarmos nas demandas habituais. Pense em uma pessoa que ficou feliz!
Além de operar a central de concreto, eu era encarregado de suprir várias necessidades do pátio: comprar materiais no centro, buscar nossas marmitas de almoço (e às vezes da janta, quando fazíamos hora extra) e resolver rotinas administrativas. Por isso, esperava ansiosamente que surgisse qualquer uma dessas tarefas só para poder pilotar meu amado fusquinha azul.
Eu era quem fazia as manutenções básicas e quem o levava à oficina para os reparos mais complexos. Abastecia — claro, com o dinheiro da firma — e cuidava de lavá-lo. Em resumo: tratava-o como se fosse meu.
Até que, certo dia, para pagar uma promessa antiga, o patrão decidiu realizar uma rifa beneficente cujo prêmio seria o meu fusquinha azul. Fiquei apreensivo. Sentia que, mesmo não sendo o dono no papel, estava prestes a perdê-lo.
Cheio de esperança, comprei vários bilhetes na tentativa de garantir o prêmio. Meus colegas de trabalho, sabendo do carinho que eu tinha pelo besourinho, também me presentearam com outros números. Mas a tentativa foi em vão: no dia do sorteio, o prêmio saiu para um morador de uma cidade vizinha, que tinha comprado um único bilhete.
O amado fusquinha que nunca foi meu iria seguir viagem para sempre. Dei uma última volta, abasteci, lavei-o pela última vez e o entregamos ao ganhador.
A vida às vezes prega essas peças na gente. Mas sei que um dia ainda terei o meu Fusca — e, quando esse dia chegar, será um dos melhores da minha vida.
Quando a Marajó subiu pelo morro… por: Pedro Dal Bo
| Não temos uma foto da Marajó. Fiquem com essa meramente ilustrativa |
Rapaz, era um carro demais, muito antes do Pálio Weekend elevar o status dos station wagon, a gente já se divertia andando num carro que virava cama e que a gente podia brincar e se mexer como se não houvesse amanhã.
Aliás, a chance de não haver amanhã era enorme, porque as noções de segurança eram muito inferiores e andávamos sem cinto no banco de trás e pulando pro porta mala com o carro em movimento sem a menor preocupação, nossa ou dos nossos pais.
E essa história tem tudo a ver com isso.
Certa vez estávamos a caminho da praia, provavelmente Ubatuba (onde uma tia tinha apto) ou Mongaguá (onde meus pais alugavam uma casa num cantinho da praia tranquilo pra gente, criança, ir sem preocupações).
Pois bem, estávamos no carro meu pai (dirigindo), minha mãe ao lado dele, eu, meu irmão e minha avó. Ela, claro, estava no meio criando uma barreira entre eu e meu irmão para minimizar as brigas que ocorreriam.
Já estávamos no trecho de serra quando meu pai comenta com a minha mãe que o carro parece ter perdido o freio. Ela automaticamente vira para trás e manda minha vó "segurar os meninos" e pede encarecidamente que fiquemos quietos e sentados porque seu pai precisa ficar atento à estrada para controlar o carro.
Mas como se controla um carro que esta sem freio? Não controla, né? Em instantes meu pai perde o controle do carro, que começa a girar na pista. A gente é lançado contra o nosso encosto e começamos a gritar. Lembro de eu e meu irmão abraçarmos minha avó chorando e achando que íamos morrer.
O que mais eu poderia pensar? Estamos na serra do mar, de um lado temos um desfiladeiro e do outro lado o final do desfiladeiro da curva anterior...
Tudo passa em instantes que parecem uma vida. De repente ouço meu pai falando com minha mãe.
"—Não tenho muito o que fazer, vou escolher o momento engatar a ré, vamos torcer para subirmos o morro."
Dito e feito, meu pai engata a ré e acelera, em instantes estamos com a Marajó enfiada no pé do talude, estamos encravados na terra com o carro preso.
Sobrevivemos. Meu pai faz o impensável e com a destreza de quem, não sei como, fez algo inimaginável. Eu nunca teria esse sangue frio.
Depois disso foi esperar aparecer o guincho e a polícia rodoviária pra nos tirar de lá e nos levar pra praia.
Lá o carro foi pro mecânico e aproveitamos como foi possível aquele final de semana.
Passamos algum tempo ainda com essa Marajó e nunca mais me esqueci do dia que rodamos igual um peão e meu pai nos salvou.
Blog e leitores, antes de saírem, dêem uma olhadinha nos meus outros cantos dessa interneta - é só navegar até a página BLOGROLL. Tem alguns blogs que sigo lá também bem legais! Garanto que não vão se arrepender.
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